À procura de um verbo

25 - Junho - 2008

Domingo, recebemos a visita da “Tia Li” (Tia Liliane), do “Chio Lins” (Tio Lins) e do primo Enzo. Com o apartamento novo, e com os brinquedos espalhados sobre o tapete da sala, o João parecia muito excitado para mostrar e compartilhar a sua casa nova.

Com a Tia Li no quarto trocando o Enzo, o João correu com a sua caixa de brinquedos para mostrar a Tia Li o que havia dentro da caixa:

“Tia Li, olha o que eu trazi”. Olha o que eu trizi.”

Foram duas tentativas à procura da forma correta do verbo TRAZER no pretérito, e ainda assim na última eu senti que ele ficou insatisfeito com o resultado.

O verbo TRAZER é um daqueles verbos irregulares da língua e o João se viu na situação comum das crianças de sua idade que estão no processo de aquisição da linguagem. A conjugação dos verbos, como no caso de comprar/comprei, andar/andei, são processos lingüísticos automáticos que se chocam com a estrutura imprevisível do verbo irregular: trazer/trouxe.

Googlerizando o tema um pouquinho mais, descobri através do psicólogo evolucionista Steven Pinker (Eu consegui ler o calhamaço “Como a mente funciona”) que há histórias interessantes a respeito dos verbos irregulares.

Uma dessas histórias diz que “eles são fósseis lingüísticos, restos de palavrório de tribos pré-históricas presentes na Europa e no sudeste da Ásia. A linguagem dessas tribos utilizava conjugações verbais que usavam regras que regularmente substituíam uma vogal por outra. Mas à medida que os hábitos de pronúncia mudavam em seus descendentes, essas regras tornavam-se mais opacas para as crianças e acabavam morrendo.”

No caso do João a dificuldade ficou evidente, mas o que me deixou feliz é que ele de alguma maneira já internalizou a formação irregular do verbo por tê-lo ouvido no burburinho das conversas ao seu redor. E o seu esforço na procura da forma correta é prova de como ele tentou ser exato no que dizia à Tia Li.

A evolução da capacidade lingüística do João é algo ao qual eu tenho uma fascinação particular. Perceber que ele além de adorar usar os plurais de maneira precisa, esforça-se para ser exato, me dá um enorme prazer e satisfação, além do que esse lento aprendizado da língua é um pequeno laboratório de como a raça humana adquiriu esta maravilhosa ferramenta chamada linguagem.

Switch Pitch

11 - Junho - 2008

Há mais ou menos uma semana atrás, enquanto estávamos na PBKids comprando mais um carrinho/personagem do filme Carros para o João, me chamou a atenção uma esfera verde e laranja no balcão. A Esfera tinha reentrâncias em seu interior, além de uma série de hastes internas conectadas de maneira muito precisa. Ao pegá-la e arremessá-la ao alto, me surpreendi ao notar que as hastes se movem de maneira a girar as superfícies da esfera para dentro substituindo-as por outras que estavam no interior da esfera.

Para evitar dar um nó no cérebro lendo essa pobre explicação literal, clique aqui.

A verdade é que eu fiquei extremamente fascinado com essa esfera, chamada switch pitch. Tão fascinado que não me contive e em um daqueles impulsos consumistas comprei-a no ato.

A minha fascinação pelo brinquedo é que à primeira vista ele parece uma criativa mistura de um objeto de arte moderna e equação matemática, fascinação que obviamente ainda não está acessível ao João. O movimento de todo o mecanismo que permite que você o vire do avesso assemelha-se muito a construção de um objeto fractal.

Em uma pesquisa rápida e superficial na internet, eu descobri que o Switch Pitch é uma criação de um Designer chamado Chuck Hoberman, e que suas criações, chamadas de Design Transformável, tanto podem ser úteis para calibrar radares que estudam a ionosfera, como também para criar objetos artesanais e brinquedos inofensivos.

O João num primeiro segundo adorou pela surpresa que o brinquedo representa, mas o brinquedo não reteve a sua atenção intermitente por muito tempo, pois no fundo a sua interação com ele resume-se a arremessá-lo para o alto ou mesmo com as mãos virar-lhe literalmente do avesso.

O Switch Pitch custa R$ 15,00 na PBKids. Não será educativo para o filho de ninguém em um primeiro momento, mas você, pai ou mãe, ao mínimo ficará dias fascinado e imaginando o quanto um brinquedo inofensivo pode conter de conhecimento e matemática em sua estrutura.