Crônica dos três anos do João
10 - Junho - 2008

Escrita em 14 de Abril de 2008
Algo que eu me recordo claramente da época em que eu era criança, era a capacidade que eu tinha de me maravilhar com os não-acontecimentos a minha volta: o fechar das folhas de certa espécie de planta que eu tocava, a chuva no telhado de minha casa, o distante barulho do mar quando eu ia chegando a praia com a minha mãe.
À medida que você cresce e vai adentrando ao cotidiano ordinário da vida adulta, as contas, as obrigações e o seu CPF vão se sobrepondo a essa existência mais simples e sensorial da vida. Você nem percebe, mas acabou de fazer parte da ferocidade do cotidiano urbano. Assim, sem aviso, sem curso preparatório.
Em poucos momentos da vida você terá novamente a chance de regredir a essa felicidade simples da infância. Um desses raros momentos é quando você tem um filho.
A tendência óbvia é acharmos que somos os seus guias em direção a essa burocracia, esse tédio das contas, das obrigações e do ramerrão do dia-a-dia ordinário. No fundo, são essas pequeninas criaturas que nos guiam de volta a esse passado simples de sensações que se foi.
Nossos filhos tocam as gotículas de chuva na janela do carro, exercitam uma palavra nova inúmeras vezes, descobrem um bicho novo, fazem perguntas que beiram o surrealismo poético: “a lua chorou, papai?”
É quando os observamos nesse processo de apreensão do mundo, que percebemos o quanto ficamos cegos para a beleza óbvia de coisas que, apesar de sempre estarem ali, as esquecemos gradualmente ao longo da vida.
Os documentos empilhados, o irrecuperável tempo perdido entre o ir e vir para casa, as horas contadas sentado em frente ao computador, o bravo raio de sol que entra por uma fresta ou outra no escritório, isso tudo não é a vida real.
No fundo, a vida que vale a pena é essa, a vivida entre o que se vê e o que se percebe de imediato. Só um filho para nos transportar de volta a ingênua felicidade da infância, só um flho…
Início
9 - Junho - 2008

Já comecei dois BLOGS anteriormente e é sempre difícil encontrar uma razão plausível e lógica para se explicar por que se escreve. No caso do “VIDA DE PAI” a razão veio muito antes da vontade de escrever.
Em verdade, tenho uma memória terrível e é fácil perder-me nela enquanto rememoro fatos isolados de minha vida. Por isso acho que anotar, refletir e escrever sobre o meu filho e o processo que é o seu crescimento, é uma boa maneira de deixar viva, para mim mesmo, a impressão de cada momento importante que passamos juntos, além de sistematizar e ajudar a refletir o sentido da paternidade em si.
Um dia, espero, talvez seja importante para ele também.